História

No caminho do ouro?

Bem na entrada de Candela, na praça do trevo, há um totem da Estrada Real, sinalizador comum em regiões por onde os caminhos do ouro passaram. No caso do monumento candelense, colocado ali não se sabe por quem, a presença era pouco notada devido ao grau de danificação pelo tempo e nenhuma manutenção. Estava, inclusive, com uma das quinas quebrada. O fato é que naquele fatídico domingo, na banca do Sr. Antônimo, enquanto os fregueses de sempre compravam seus jornais, um deboche partiu de alguém que folheava uma revista de História, acendendo a questão:

– Engraçado, eu nunca entendi o motivo daquele totem na entrada da cidade, uma grande mentira – e soltou uma leve risada, acenando negativamente com a cabeça, enquanto passava outras páginas e lia os títulos das matérias. Era o jovem pré-universitário de nome Gabriel Fernandes.

Se existia uma situação que deixava Sr. Antônimo mais contrariado do que alguém que folheava periódicos e não leva nenhum, era alguém que não respeitava os fatos históricos de Candela, terra de sua família há séculos.

– Você precisa estudar mais sobre a nossa cidade, meu jovem – comentou o dono da banca.

– Nada, isso é tudo inventado pelo povo daqui – respondeu o rapaz mantendo os olhos na revista.

Pronto. Na praça central onde ficava a banca e as famílias que levavam as crianças para brincar depois da missa, a tensão fincou suas bandeiras e uma guerra poderia estourar a qualquer momento. De um lado, o senhor de 63 anos, tido como um sábio por muitos, dado o costume de ler tudo do seu estabelecimento, e ser visto sempre tirando dúvidas de crianças em suas tarefas escolares. Uma enciclopédia viva, como costumavam dizer. Do outro, o meninão crescido, magricela, de corpo encurvado e cabeça oca. Um veterano na enrolação e no improviso diário. Prova disso, era ter chegado ao último ano do Ensino Médio e estar prestes a fazer vestibular para História em uma faculdade na cidade vizinha.

O fato é que Antônimo não gostava de ver Candela sendo menosprezada, nem por um jovem, nem pelos registros do país. Apesar de nervoso, manteve a voz mansa enquanto saia de trás do balcão em direção ao jovem. Muita gente aproximou para ouvir e tirar a tal dúvida, que agora havia colado até nos que nunca tinham sequer percebido o totem. O jovem pouco se preocupava em prestar atenção, mas fingia bem.  No entanto, com o aglomerado de gente que se ajuntou, ele ficou esquecido e a guerra esperada não veio. Só a da ansiedade de todos para compreender tudo até que o sábio ficasse com a boca ressecada e com aquelas coisinhas brancas nojentas nos cantos dos lábios. O conjunto se voltou para a fogueira do conhecimento local: Sr. Antônimo.

Periodicamente arrumando os óculos de hastes finas e lentes arredondas e coçando a barba branca, iniciou uma história fascinante que poderia parar gráficas para alterar livros didáticos de um país inteiro. Começou explicando o porquê de o município não figurar entres as demais cidades históricas – o que tirava dela oportunidade de exploração turística – e o fato de ela estar tão longe dos traçados oficiais da Estrada Real.  Segundo o dono da banca, durante a busca por ouro no atual estado mineiro, muitos foram os fracassos. Um dos motivos era a falta de infraestrutura para longas permanências para pesquisas de exploração. No entanto, uma expedição de paulistas, liderada pelo bandeirante Fernão Dias, abriu caminhos firmes para a empreitada. Antes de entrar no território, mandou outros grupos à frente para plantar roças e criar animais que serviriam de alimento para sua tropa durante os anos em que estivesse na busca por metais preciosos. Um desses grupos, temendo ataques indígenas às trilhas abertas, teria se afastado dos traçados prescritos por Fernão e aberto uma picada secreta entre as matas até uma região de terra boa, protegida por montanhas. Ali plantou fartamente e fez nascer animais graúdos.

– Adivinha qual cidade surgiria naquele local de prosperidade? – indagou Sr. Antônimo para ver se todos estavam acompanhando o seu raciocínio. Muitos acenaram que haviam captado.

Ao continuar o discurso, o homem explicava que durante as descobertas dos metais que minavam aqui e ali, enquanto muitos daqueles lugares de suprimento se converteram em vilarejos e o consumo da região havia aumentado, assim como a população guiada pelo brilho do ouro abundante, a alimentação é que se tornou escassa e, claro, inflacionada. Assim, o território que serviria futuramente de chão para Candela estaria protegido e rico de frutos para suprir grupos seletos de mineradores que mantinham em sigilo aquele caminho. Motivo pelo qual o importante apêndice não fora inserido nos mapas oficiais da Estrada Real.

Quando o então povoado do Entre Morros do Rio Adentro surgiu, a já nomeada Minas Gerais tinha resolvido as questões alimentícias e não houve quem defendesse o vilarejo como parte importante do caminho do ouro. A história teria ficado com os primeiros moradores que passaram os fatos oralmente de geração em geração.

Foi um padre da paróquia local que, no início dos anos 1900, resolveu colocar os dados no papel e transformá-los em livro a partir de doações da comunidade. A publicação foi um fracasso e muitos exemplares se perderam. Mas um deles fora parar na dispensa da casa de um tio do Sr. Antônimo. Este, quando jovem, lia pequenos trechos escondido a cada vez que visitava o parente.

Ninguém podia confirmar ou contestar a fala do dono da banca. Algumas pessoas ficaram muito entusiasmadas com a história. Outras, não engoliram tão fácil os fatos, até porque Candela estava muito longe de qualquer trecho dos antigos caminhos de escoamento de metais preciosos. E também porque Sr. Antônimo, em alguns momentos da fala, como que querendo dar mais credibilidade a sua voz mansa de pouca eloqüência, citava casos grandiosos mas difíceis de se acreditar. Chegou a dizer que o vilarejo, nos primórdios, tinha sofrido uma versão própria da Guerra dos Emboadas, a partir do ataque de uma tropa de paulistas que encontrara o caminho. Falou também que Candela fora refúgio de mineiros que queriam escapar dos altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa e da temida Derrama e teriam criado na cidade uma casa de fundição de moedas clandestina. Disse até que Tiradentes havia passado por ali, conscientizando às escuras sobre a necessidade de uma insurreição.

Quando Sr. Antônimo terminou o discurso, de garganta seca e, sim, com aquelas inevitáveis coisinhas brancas nojentas nos cantos da boca, duas dúvidas ficaram: a da veracidade de todos fatos contados e sobre quem havia colocado, afinal, o maldito totem da Estrada Real na entrada de Candela. Ninguém ousou tirar a limpo a primeira questão com o vendedor de periódicos e nem quis estender assunto lembrando-lhe da segunda dúvida.

Sabe-se que por algumas semanas ele ficou sem receber visitas de crianças e tarefas em seu estabelecimento; que o jovem pré-universitário, milagrosamente, comprou uma revista naquele dia, não de História como as que costumava folhear, mas de Ciência e Tecnologia e, ainda, mudou de ideia quanto ao curso; e que no outro dia a cidade recebeu a segunda-feira com um acessório a menos. Por algum motivo, o totem havia sumido da entrada de Candela.


Informações adicionais: alguns dados descritos foram inspirados no livro Boa Ventura! – a Corrida do Ouro no Brasil, de Lucas Figueiredo, com exemplares na banca do Sr. Antônimo. Mas grande parte vem da memória do veterano vendedor de livros e periódicos. Sabe-se lá de onde ele tirou isso. Vai ver é verdade.

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