História

A cidade

Candela é dessas típicas cidades mineiras com seus pouco mais de 15 mil habitantes, segundo o último Censo, e 20 mil conforme juram de pés juntos seus defensores moradores. E como todo município de Minas Gerais, fica bem ali, sendo o ali uma unidade de medida exclusivamente mineira. No caso de Candela, é bem ali, numa região cercada de altas montanhas, com algumas cachoeiras, em algum lugar entre Diamantina e Simão Pereira. E nem adianta procurar em mapa de papel ou na internet. É que o cartógrafo pulou a cidade na época dos registros oficiais. Já o satélite que fotografa, captou justamente no dia em que havia uma nuvem gigante e densa encobrindo o município. Mas Candela existe, com sua igrejinha no centro, com suas histórias e lendas, com senhoras fofoqueiras debruçadas nas janelas que dão para as ruas e homens beberrões nos bares das manhãs de domingo.

Dizem que o nome foi dado por um físico de passagem pela então Vila do Entre Morros do Rio Adentro. Um dia, enquanto o sábio cientista despertava em meio à friagem e ao breu que embebia o povoado pouco antes das seis, pode contemplar um pequeno ponto de luz na parede do dormitório. Verificou que aquele era o primeiro sinal do sol em toda a vila. É que, àquelas horas, o astro rei já havia começado a ganhar o céu, mas as montanhas o encobriam. Então, um raio arredio, se embrenhou entre duas montanhas, atravessou o arvoredo, desceu morros, venceu outros tantos obstáculos e foi se encontrar já abatido e fraco na parede do quarto do ilustre hóspede. Àquele momento era um simples e fraco feixe de luz que, projetado na parede caiada, se apresentava como um ponto esverdeado. “Uma candela!”, anunciou o nobre cientista para si mesmo, mais entusiasmado do que preocupado com definições exatas. No minuto seguinte, diante de um público modesto, convidado às pressas para presenciar o fato, discursou: “neste local, apesar de todas as tentativas da Mãe Natureza e de suas formações geológicas para manter a população sonolenta nos braços de Morfeu e em plena escuridão diante da aurora, Hélios manda um de seus corajosos raios para anunciar que é dia e hora do batente. Este honrado filho chega nesta alcova, abatido, com  mínima intensidade. Um ato de bravura como este não deve ficar no anonimato. É preciso coroar a ocasião e celebrar este belo ponto de luz de uma candela”.

Sabe-se que ninguém entendeu uma só palavra do que o homem queria dizer com aquilo tudo, misturando física e mitologias em forma de uma filosofia peculiar a quem passara a noite na companhia da cachaça local. Mas por ser um profissional renomado, todos tinham certeza da indubitável importância do que discursava e a população do Entre Morros do Rio Adentro fez ecoar a sapiência do hóspede e, como só havia guardado a última palavra do discurso, dita com tanta veemência, tratou de incorporá-la ao nome do povoado. Porém, a Vila de Candela do Entre Morros do Rio Adentro durou pouco. Alguns anos depois o local evoluiu à municipalidade. Virou Candela, simplesmente.

Alguns podem não acreditar na existência da dita cidade. Coisa de gente desmiolada que procura explicação para tudo e não encontra bom significado para nada. Por isso, deixemos por bem que Candela tenha seu lugar, mesmo que seja somente nos corações dos desapegados da Ciência dos “Porquês”. E para quem acredita, cuidado: qualquer semelhança com outras cidades é mero vício provinciano. Porque Candela é única. E é logo ali.

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