Cotidiano

Sem hora

Quando menina, suas agendas eram de janeiros vazios, que ela carinhosamente preenchia com poesias, trechos de livros e mensagens escritas por amigas.

Mas a vida e os sonhos predestinados foram tratando de ocupar as lacunas do calendário. O trabalho levou os janeiros, os feriados emendados. Os filhos tiraram-lhe a alegria e o sossego das férias de julho. O casamento, a possibilidade de celebrar a virada de ano com os pais.

Também ficou no passado o ritual adolescente de se sentar no peitoril da janela do quarto para ver o sol se avermelhando ao fim do dia e comer as pipocas queimadas que ela nunca acertava o tempo na panela.

Com direito, agora, de só olhar para frente, para um futuro que a mão nunca alcança, porém os olhos se acostumam a mirar, trocava muitos fins de semana por projetos extras para complementar a renda.

Na empresa, os colegas não sabiam que ela adorava comer sozinha. E esse tempo, que poderia estar vago para ela, também lhe fora tirado.

Em um ano tão grande, faltava espaço para se voltar para os amores próprios. Sobravam, de vez em quando, no trabalho, os quinze minutos do café. Dava para mastigar qualquer coisa correndo, engolir com ajuda do pingado e fugir sozinha para debaixo de uma árvore no pátio. No relógio, restavam ainda dez minutos. Tempo precioso para respirar, pensar na vida, olhar para cima, admirar a beleza daquela árvore, sentir saudades de Candela, da infância, do tempo. Tudo isso se o aplicativo de mensagens não apitasse e a curiosidade para ver as conversas não falasse mais alto.

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